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Demissão, mudança para o Acre, parceria com a esposa e um taxista cinegrafista: os bastidores do 'Tá na História'

  • Foto do escritor: Pedro Bohnenberger
    Pedro Bohnenberger
  • 10 de mai. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 11 de mai. de 2025

O jornalista, historiador e professor Thiago Gomide conta, no primeiro episódio do podcast Bohn de Papo, os bastidores do Tá na História. Com quase 4 milhões de seguidores nas redes sociais, o projeto encontra no ordinário o extraordinário. Caminhando pelas ruas, Thiago narra histórias esquecidas pelos livros didáticos.

Thiago Gomide, fundador do Tá na História. Foto: Instagram / Arquivo Pessoal
Thiago Gomide, fundador do Tá na História. Foto: Instagram / Arquivo Pessoal

Parece invenção, mas não é: em plena década de 1930, Getúlio Vargas tentou substituir o Papai Noel por uma figura nacional — o chamado “Vovô Índio”. A ideia fazia parte do movimento integralista, que via o bom velhinho como um símbolo estrangeiro indesejável. Sob a tutela de Plínio Salgado, eles assumiam que Papai Noel não deveria mais ser cultuado no Natal e convenceram Getúlio. Para isso, eles propuseram o Vovô Índio, um velhinho indígena que carregava uma sacolinha. Segundo Thiago, a tentativa de “abrasileirar” o Natal não resistiu ao apelo das tradições nem ao carinho do público pelo personagem de roupa vermelha.

“O Vovô Índio tinha o carisma de uma jaguatirica bebendo água. E, claro, não convenceram as crianças a gostarem do substituto do Papai Noel. Então, no estádio de São Januário, vão fazer uma grande festa para o Vovô Índio. E a criançada só faltou jogar pedra no Vovô Índio. O cara era horroroso, parecia o homem do saco. Começa a gritar Papai Noel, ou seja, coro de crianças gritando Papai Noel para os integralistas que queriam enfiar goela abaixo da criançada e dos pais o Vovô Índio”, conta.
Vovô Índio - Getúlio Vargas
Reproduções do Vovô Índio, figura que surgiu nos anos 1930 para substituir Papai Noel. Foto: Reprodução

A história integra o livro “Fora das 4 linhas”, lançado por Gomide em 2022. O material conta histórias curiosas do futebol, que transcendem os gramados. De impressão única, a obra é uma raridade, desafiando os leitores a encontrar os últimos exemplares disponíveis.


Pílulas: uma revolução silenciosa na forma de ensinar e aprender


O projeto Tá na História ganha corpo no Acre, quando Thiago é demitido do Canal Futura e se muda do Rio. Ao lado da mulher, Fernanda Arouca, ele estruturou o formato que hoje inspira milhões de seguidores. Tudo começou na 'metodologia do pau de selfie', termo inventado por Gomide. Com vídeos no formato selfie, ele narra histórias das ruas do país que passaram longe dos livros didáticos.


Os vídeos são curtos e bem-humorados. Thiago não se propõe a substituir a sala de aula, mas a ser uma porta de entrada para o interesse histórico.


“Eu sou o vendedor de amendoim. Coloco o amendoim na mesa para ver se a pessoa gosta e, se gostar, ela vai atrás da bibliografia”, explica.


A receita de sucesso de Thiago é clara: encontrar no ordinário histórias extraordinárias. Trabalho árduo e que demanda muita pesquisa.

“O fardo é muito grande, porque o óbvio, aquilo que já foi registrado, todo mundo tem. Eu gosto de mostrar aquilo que tá distante, o lugar onde as pessoas não costumam enxergar a beleza. E isso demanda infinitamente mais tempo. É mais fácil falar de Copacabana do que falar de Honório Gurgel sob a perspectiva histórica. É mais fácil falar de Honório Gurgel se você for retratar a violência. Não é isso que eu acho legal. Honório Gurgel tem uma história incrível, precisa ser tratada. Mas isso daí, por termos infinitamente menos bibliografias, acaba me demandando muito mais cruzamentos de informações”, relata.

Taxista se tornou braço direito de Gomide no Tá na História


Outra história marcante no universo do “Tá na História” é a de Marcelo Fernandes, do Programa Taxiando, que virou braço direito de Thiago Gomide no projeto.

“O Marcelo tinha um programa na Roquette Pinto. Ele parava o táxi, subia, fazia o programa de rádio, descia para o táxi e voltava a trabalhar. E quando eu virei presidente [da Roquette Pinto], eu não o conhecia. O nosso Marcelo, com duas câmeras velhas, conseguia transmitir ao vivo o programa dele, uma coisa que a rádio não conseguia. E aí chegou um determinado momento que eu falei: Vem trabalhar na rádio. Vai ser meu assessor”, afirma.

Nesse período, Marcelo acompanhou o desenvolvimento do canal e depois integrou a equipe, fazendo a segunda câmera, de contraplano, que aparece nos vídeos virais.

“Esse cara virou um super case de sucesso. Era taxista, virou comunicador da Roquette Pinto, assessor especial da presidência e agora tá junto comigo no projeto. Eu trabalhei com Caco Barcellos. Caco foi taxista. O Che Oliveira, repórter dos grandes, também. Isso é uma coisa natural. Não existe demérito em você ser taxista, não existe demérito em você ser o que quer que seja”, explica.

“A rua me humaniza”: pé no chão e olhar atento para captar boas histórias


O amor ao Rio — e à rua — se transformou em livro. Em Amor ao Rio, Thiago percorre o centro da cidade narrando curiosidades do comércio e da cultura carioca. Para ele, viver a rua é viver o Brasil. Histórias como a dos vendedores de esfirra vestidos com turbantes nas praias cariocas ganham contexto: são herança da imigração árabe, que se concentrou na Saara, centro do Rio, no início do século XX.


Entre maratonas de pesquisa, gravações e livros esgotados — como Fora das Quatro Linhas —, Thiago segue em frente. Jornalista e historiador, escolheu caminhos que não costumam acompanhar o enriquecimento financeiro.


“Eu não tenho pretensão de ser bilionário. O que me mobiliza é fazer. É contar boas histórias. É ajudar o meu biógrafo.”


Para Thiago Gomide, a resposta para a pergunta abujamriana “o que é a vida” é clara: é aquilo que vamos transformá-la.

“A vida, na minha concepção, é o meio de campo entre o desconhecido e a necessidade de a gente não desperdiçar essa oportunidade única de estarmos aqui. Fazendo da vida o que nós quisermos. A vida, para mim, está na rua. Eu gosto de viver a rua porque ela também me humaniza mais, ela me traz com os pés fincados no chão. Para que a gente faça da nossa vida um grande mosaico de conhecimentos e entenda que a vida é o que nós vamos transformá-la”, finaliza.

Curtiu esse Papo Bohn? Ouça a aventura completa no podcast Bohn de Papo, com Thiago Gomide, que reúne outros detalhes de bastidores e histórias apetitosas não descritas nesta reportagem.



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